O Seminário e a formação de Pastores – Parte 12

6.3. Entre os Protestantes

                   6.3.1. Um pouco de História

 

Quando as criaturas humanas desejam reformar a igreja, é certo que lhes custará sangue. − Martinho Lutero (1483-1546).[1]  

Nós estudamos os Reformadores pela mesma razão que os Reformadores estudaram os Pais da Igreja. Eles são testemunhas da autoridade da Igreja. Os Reformadores estudaram os comentários patrísticos sobre a Escritura porque eles enriqueceram o seu próprio entendimento da Escritura. Hoje nós estudamos os Reformadores porque eles lançaram assim muito mais luz sobre as páginas da Bíblia. Eles estavam apaixonadamente preocupados em adorar a Deus verdadeiramente e eles buscavam a Escritura para aprender como. Nós estudamos os Reformadores porque sua compreensão da Escritura é assim profunda.  – Hughes Oliphant Old (1933-2016).[2]

Lutero viajando pela Saxônia Eleitoral e por Meissen, entre 22/10/1528 e 09/01/1529, resolveu escrever um Catecismo. Explicando a razão de sua decisão, faz observações importantes a respeito da situação da Igreja:

A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino. (…) Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos.[3] (grifos meus).

Calvino que estudara  nos  Collège de la Marche,[4] Collège de Montaigu,[5] Universidade de Orléans,[6]  Universidade de Bourges,[7] e o Collège Royal,[8] tendo como mestres alguns dos grandes professores de sua época, conhecia bem a dureza (Montaigu), estrutura, rotina e o rigor acadêmico da vida universitária.

 

Calvino, um humanista

Antes de ser um teólogo ele fora um humanista.[9] A sua filosofia de ensino reflete a sua apurada formação e maturidade intelectual[10] dentro de um referencial que partia das Escrituras tendo a soberania de Deus como princípio orientador e a glória de Deus como fim de todas as coisas, inclusive de nosso saber.[11]

Calvino esteve associado a homens de indiscutível valor intelectual, procurando, quando possível, levá-los, desde que crentes fiéis, a prestar sua contribuição em Genebra. Ele  apoiou  o  humanista  Guillaume Budé (1467-1540),  que  era  chamado  de “Prodígio da França”, e, juntamente  com  Erasmo  (c.1469-1536)  e Juan Luis Vives (1492-1540),  foi  considerado  o  “triunvirato do humanismo europeu”.[12]

Budé, como historiador, filósofo e helenista,  contribuiu  para o reavivamento do interesse pela língua  e  literatura Gregas e colaborou na introdução do Humanismo  na França. Foi a seu pedido que Francisco I da França criou o Colégio Real (Collège Royal) em 1530 conforme já nos referimos.

 

Luta por melhorar o ensino em Genebra

O jovem Calvino, já na sua primeira permanência em Genebra (1536-1538) insistiu junto aos Conselhos para melhorar  as  próprias  condições do ensino, bem como os recursos das  escolas. Ele apresentou ao conselho municipal um projeto educacional (1536) gratuito que se destinava a todas as crianças – meninos e meninas[13] –, tendo um grande apoio público. Desta proposta surgiu o Collège de Rive.

Temos aqui o surgimento da primeira escola primária, gratuita e obrigatória de toda a Europa:[14] “Popular, gratuita e obrigatória”.[15] No entanto o Collège de Rive encerrou suas atividades durante o período de Calvino em Estrasburgo (1538-1541), sendo reativado com a sua volta definitiva para Genebra (1541).[16]

Havia em Genebra uma faculdade desde 1428, chamada “Faculdade Versonnex” (L’école de Versonnex), que recebeu este nome em homenagem ao seu benfeitor, François de Versonnex que doou o prédio para a construção da escola (30.01.1428), tendo como uma de suas condições, que todos os alunos rezassem pela sua alma todas as manhãs.[17]

Essa escola se destinava à preparação de clérigos. No entanto ela havia entrado em decadência, sendo reorganizada por Calvino em 1541. A instrução era gratuita.[18]

Calvino incentivou a educação fundando diversas escolas estrategicamente distribuídas na cidade. As taxas eram baixas até que foram abolidas (1571) conforme pedido de Theodore Beza (1519-1605).

Por vezes Calvino é chamado o fundador do sistema de escola pública. Ele desejava criar uma grande universidade, todavia,  os recursos da República eram pequenos para isso, assim ele se limitou à Academia. Entre a frustração diante de uma utopia inalcançável e a comodidade da inércia, derramando seu fel rancoroso em cinismo, há o caminho construtivo de se trabalhar positivamente com os recursos de que dispomos.

Calvino seguiu esse caminho. Não foi fácil. Até para criar a Academia teve de pedir de casa em casa donativos, conseguindo arrecadar a soma respeitável de 10,024 guilders de ouro. Também, diversos estrangeiros que ali residiam contribuíram generosamente, havendo também um genebrino, Bonivard (François Bonivard, [1493-1570]}, que doou toda a sua fortuna à instituição.[19]

 

Problemas e soluções

Fazendo uma pequena digressão, não devemos nos esquecer que a Genebra da primeira metade do século XVI, era uma cidade promíscua[20] e endividada. Passou a receber muitos imigrantes especialmente a partir de 1542. Muitos chegavam sem recursos. Havia uma metodologia para tratar desta questão:

Um supervisor distrital fazia a triagem de todos os pedidos e apresentava aos diáconos os que ele achava que deviam ser aprovados. Os diáconos visitavam as casas para verificar as necessidades. Cerca de 5% da população de Genebra receberam ajuda financeira, quase sempre por pouco tempo. Os diáconos, pensando com uma mentalidade empresarial, às vezes usavam os recursos da igreja para comprar ferramentas, matéria-prima ou pagar o aluguel inicial de uma loja. Os refugiados que eram artesãos podiam trabalhar.[21]

Nesse espírito, os antigos ourives de Genebra, entre eles, muitos refugiados franceses, que trabalhavam com joias com motivos religiosos e, também, de ostentação, em sua nova fé perceberam gradualmente a incompatibilidade de suas produções. Muitos redirecionaram o seu trabalho para a fabricação de relógios.[22]

A Suíça era também conhecida por seus valentes e bem treinados jovens que se tornavam mercenários (Reisläufer) de reis e príncipes. Um elemento fomentador para isso era, além das recompensas financeiras, o gosto pela aventura e a falta de emprego, pois a economia suíça era eminentemente agrícola. Com a Reforma esse quadro gradualmente foi sendo transformado.

 

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] Martinho Lutero, Conversas à mesa, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, # 371, p. 214.

[2] Hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, Atlanta: John Knox Press, 1984, p. 5.

[3]M. Lutero, Catecismo Menor: In: Martinho Lutero, Os Catecismos, Porto Alegre; São Leopoldo, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, p. 363.

[4] McGrath discute a possibilidade de esta interpretação tradicional ser equivocada. Em sua opinião Calvino não estudou no Collège de la Marche (Ver: Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 37-43).

[5] As regras do Collège de Montaigu, fundado em 1314, eram bastante rígidas e a alimentação precária. É famosa a descrição de Erasmo a respeito desta Escola. Entre outros trabalhos, vejam-se: D. Erasmus, The Colloquies of Erasmus,  Chicago: The University of Chicago Press, 1965, p. 351-353; Roland H. Bainton, Erasmo da Cristandade,  Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1988),  p. 39ss.; Alister McGrath, A Vida de João Calvino, p. 44-45. Para um estudo detalhado de Montaigu, a obra clássica é: Marcel Godet, La Congrégation de Montaigu, Paris: Libraire Ancienne Honoré Champion, 1912, 220p.

[6] Por motivos não totalmente esclarecidos, seu pai resolveu enviá-lo (1528) para a conceituada e concorrida Universidade de Orléans, fundada em 1306, de cunho mais humanista, onde se dedicaria ao estudo de Direito civil sob a influência do conceituado jurista, Pierre L’Étoile (Latinizado:  Petrus Stella [1480-1537]) cognominado de “rei da jurisprudência” e “príncipe dos juristas”, que posteriormente se tornaria presidente do Tribunal do Parlamento em Paris. Calvino, ao que parece ficou impressionado com a erudição de seu mestre. Aqui o jovem e talentoso estudante teve a oportunidade de substituir em sala alguns de seus professores, inclusive o próprio L’Étoile, que o convidara primeiro.

[7] Com o objetivo de aperfeiçoar-se e, certamente atraído pelo famoso humanista e mestre de Direito, o italiano Andreas Alciati (1492-1550), “um jurista de primeira linha, teórico da soberania do Príncipe” (Emmanuel Le Roy Ladurie, O Mendigo e o Professor: a saga da família Platter no século XVI, Rio de Janeiro:  Rocco, 1999, v. 1, p. 325) foi para a Universidade de Bourges (1529-1531), fundada em 1463 por Luís XI. (Cf. Theodoro de Beza, A Vida e a Morte de João Calvino, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 2006, p. 11).

Alciati era famoso também pelo seus discursos simples, sem grandes rebuscamentos retóricos. Não sei o quanto ele influenciou nesse aspecto o então jovem Calvino que terá como marcas a simplicidade e objetividade. Bem mais tarde, justificando o seu estilo, que não seria o mais apetecível àqueles que desejavam grande acervo de material, diz (1557): “…. nada é mais importante do que granjear o respeito que produza a edificação da Igreja” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999,  v. 1, p. 48). Em 26 de janeiro de 1559, Calvino escreve a Dedicatória do seu comentário do Livro de Oséias. Nas palavras dirigidas ao rei Gustavo da Suécia (1496-1560), diz: “…porque há muito tempo aprendi a não cortejar o aplauso do mundo. (…) Se Deus me dotou com alguma inteligência para a interpretação da Bíblia, eu estou completamente convencido de que tenho fiel e cuidadosamente procurado excluir todo e quaisquer refinamentos estéreis, porém procuro ser aceitável, agradável e adequável às pessoas, preservando a genuína simplicidade, adaptada firmemente à edificação dos filhos de Deus que, não estando contentes com a casca, desejem penetrar no núcleo” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, v. 13, p. XVIII-XIX). Vejam-se também: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 40.8), p. 228; João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996 (1Co 1.17), p. 50ss.

Na Universidade de Bourges – que fizera grande investimento para atrair professores renomados –, estudaria também com Melchior Wolmar (1497-1560), a quem conhecera em Orléans.

[8]Com a morte de seu pai (1531) tornou à Paris. Foi estudar no Colégio Real, recém-criado (1530) por Francisco I (1494-1547) (Que em 1870 passaria a se chamar Collège de France), tendo como lema: “Docet Ominia” (“Ensina tudo”). Aqui Calvino veio continuar seus estudos literários e aperfeiçoar seus conhecimentos de grego com o professor Pierre Danès (1497-1577) (Que ironicamente mais tarde faria parte do Concílio de Trento) e aprender hebraico (1531-1533) com François Vatable (1495-1547) considerado o restaurador da erudição hebraica na França,  indo residir no Colégio Fortet. (Vejam-se: Emile Doumergue, Jean Calvin: Les hommes et les choses de son temps, Lausanne: Georges Bridel & Cie Editerurs, 1899, v. 1, p. 201, 505; David L. Puckett, John Calvin’s Exegesis of the Old Testament. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press (Columbia series Reformed Theological), 1995, p. 76-77 (nota 44); Wilson de Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1985,  p. 47; Vicente Temudo Lessa, Calvino 1509-1564: Sua Vida e Obra, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, [s.d.], p.  p. 55).

 

 

 

[9]Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève, Genève: Georg & Cº, Libraires de L’Université, 1900, p. 21. Veja-se: Hermisten M.P. Costa,  João Calvino: O Humanista subordinado ao Deus da Palavra – A propósito dos 490 anos de seus nascimento. In: Fides Reformata, Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 4/2 (1999) (Disponível: https://cpaj.mackenzie.br/fileadmin/user_upload/8_Joao_Calvino_O_Humanista_Subordinado_a_Palavra_de_Deus_Hermisten_Costa.pdf).

[10] Ford L. Battles, Interpreting John Calvin, Grand Rapids, Michigan: Baker Books, 1996, p. 47.

[11] “Não  busquemos as cousas que são nossas, mas aquelas que não somente sejam da vontade do Senhor, como também contribuam para promover-lhe a glória” (João Calvino, As Institutas, III.7.2). “Não há glória real senão em Deus” (João Calvino, As Pastorais, (1Tm 1.17), p. 46). Veja-se o verbete “Glória”, In: Hermisten M.P. Costa,  Calvino de A Z,  São Paulo: Vida, 2006, p. 138-140.

[12]Cf. Guillermo  Fraile, Historia de la Filosofia, Madrid:  La Editorial Catolica, S.A. 1966, v. 3, p. 62.

[13] Como curiosidade menciono que no Brasil, a primeira escola para moças foi aberta no Rio de Janeiro, capital no Império, em 1816. (Vejam-se:   Laurence Hallewell, O Livro no Brasil: sua história.  São  Paulo: T.A. Queiroz; EDUSP., 1985, p. 87; Luiz  Agassiz; Elizabeth C. Agassiz, Viagem ao Brasil: 1865-1866,  Belo Horizonte, MG.: Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1975, p. 292-293).

[14] John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, New York:  Oxford University Press, 1954, p. 135. Inter alia: Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève, p. 16-18; Lorenzo Luzuriaga, História da Educação Pública, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959, p. 1, 5-6; Elmer L. Towns, John Calvin. In: Elmer L. Towns, ed.  A History of Religious Educators, Michigan: Baker Book House, 1985, p. 168-169; Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 804.

[15]Eugène Choisy,  L’ État Chrétien Calviniste: Genève au XVIme  siècle, Genève: Librairie Georg & Cia. 1909, p. 9.

[16]Ford L. Battles, Interpreting John Calvin, p. 61-62; John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 192; Robert W. Pazmiño, Temas Fundamentais da Educação Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 149.

[17]https://ge.ch/archives/1-moyen-age-college-de-versonnex. (Consultado em 04.07.2023). Ele era um benfeitor da cidade, criando também um hospital em 1452 (https://ge.ch/arvaegconsult/ws/consaeg/public/fiche/Record?upp=0&w=NATIVE%28%27%28key+%3D+84564+%29+and+ORIGINE+%3D+%27%27DOC%27%27%2C%27%27COLPHO%27%27%27%29&m=1&type=DOC&action=-1) (Consulta feita em 23.12.2023).

[18] Veja-se: Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève, Genève: Georg & Cº, Libraires de L’Université, 1900, p. 13-18.

[19]Cf. Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 804-805; Charles Borgeaud, Histoire l’Université de Genève, p. 214.

[20]“As maneiras do século XVI eram geralmente rudes e a moral do século XVI, frouxa.  (…) No que diz respeito à moral – isto é, à moral sexual – Genebra se distinguia por sua licenciosa frouxidão. Em todas as cidades da Europa, os homens mantinham suas amantes: em Genebra, um homem tinha permissão para manter uma amante e não mais. Cada cidade tinha seus bordéis: em Genebra, um bairro em especial (“a special quarter”) era reservado para as prostitutas, que tinham sua posição ainda mais regulamentada por usar roupas distintas e por serem governadas por uma delas como uma espécie de rainha. Foi esta situação geral que os reformadores enfrentaram, desafiando-os não só como honestos cidadãos, mas sobretudo como ministros da Palavra de Deus” (T.H.L. Parker, Portrait of Calvin, London: SCM Press, 1954,  p. 29). No entanto, passaria gradativamente por grande transformação. Atribuindo em grande parte à pregação de Calvino, Parker também escreve: “Genebra, antes da Reforma, uma das cidades mais imorais da Europa, foi completamente mudada e continuou como um modelo de piedade por mais de um século e meio” (T.H.L. Parker, Os Oráculos de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 44).

[21]Marvin Olasky, O Roteiro secular no teatro de Deus: Calvino sobre o significado cristão da vida pública: In: John Piper; David Mathis, (Orgs.). Com Calvino no teatro de Deus: A glória de Cristo e a vida diária, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, [p. 79-91], p. 88.

[22]Cf. https://espiraldotempo.com/calvino-genebra-e-os-metiers-dart/  (Consulta feita em 07.10.2022).

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