O Seminário e a formação de Pastores – Parte 18

Eleição e Missão

Comentando 1Tm 2.4, Calvino afirma: “…. nenhuma nação da terra e nenhuma classe social são excluídas da salvação, visto que Deus quer oferecer o Evangelho a todos sem exceção”.[1]

À frente continua: “Aqueles que se encontram sob o governo do mesmo Deus não são excluídos para sempre da esperança de salvação”.[2]

Por isso, “o Senhor ordena aos ministros do Evangelho (que preguem) em lugares distantes, com o propósito de espalhar a doutrina da salvação em cada parte do mundo”.[3]

Analisando uma das implicações da petição “venha o Teu Reino”, comenta: “Portanto, nós oramos pedindo que venha o reino de Deus; quer dizer, que todos os dias e cada vez mais o Senhor aumente o número dos Seus súditos e dos que nele creem”.[4]

Em outro lugar, acrescenta:

Não existe outra forma de edificar a igreja de Deus senão pela luz da Palavra, em que o próprio Deus, por sua própria voz, aponta o caminho da salvação. Até que a verdade brilhe, os homens não podem se unir juntos, na forma de uma verdadeira Igreja.[5]

O meio ordinário de Deus agir é chamando, persuadindo e congregando o seu povo por intermédio do seu povo. Em outras palavras, nós somos instrumentos, “elos vitais” no desenvolvimento do propósito salvífico de Deus, proclamando a sua Palavra de salvação.[6]

Cabe aqui uma palavra de advertência e consolo quanto à nossa responsabilidade e limite: Quem será salvo? Quantos serão salvos? São perguntas que não nos compete fazer. Contudo, a nossa responsabilidade é de cumprir a ordem expressa de Cristo, de anunciar o Evangelho a todas as pessoas, sabendo que a conversão é uma operação do Espírito, que ultrapassa à nossa capacidade.[7]

Compete-nos apenas pregar, não especular.[8] Calvino nos ensina mais uma vez:

Ademais, devemos depreender dessa passagem que a doutrina da predestinação não serve para nos arrebatar para as especulações extravagantes, mas para abater todo orgulho em nós, bem como a tola opinião que sempre concebemos do nosso valor e mérito próprios, e para mostrar que Deus tem livre poder sobre nós, bem como privilégio e domínio soberano, de tal modo que pode reprovar a quem quiser e eleger a quem lhe apetecer.[9]

Comentando o Salmo 96, Calvino sustenta que:

O salmista está exortando o mundo inteiro, e não apenas os israelitas, ao exercício da devoção. Isso não poderia ser efetuado, a menos que o evangelho fosse universalmente difundido como meio de comunicar conhecimento de Deus. (…) O salmista notifica, consequentemente, que o tempo viria quando Deus erigiria seu reino no mundo de uma maneira totalmente imprevista. Ele notifica ainda mais claramente como ele procede, ou, seja: que todas as nações partilhariam do favor divino. Ele convoca a todos a anunciarem sua salvação e, desejando que a celebrassem dia após dia, insinua que ela não era de uma natureza transitória ou evanescente, mas que duraria para sempre.[10]

Prudência recomendada:

Se alguém assim se dirige ao povo: “Se não credes é porque Deus já os há predestinado à condenação”, esse não somente alimentaria a negligência como também a malícia. Se alguém também para com o tempo futuro estenda a asserção de que não hajam de crer os que ouvem, porquanto hão sido condenados, isto seria mais maldizer do que ensinar. (…) Como nós não sabemos quem são os que pertencem ou deixam de pertencer ao número e companhia dos predestinados, devemos ter tal afeto, que desejemos que todos se salvem; e assim, procuraremos fazer a todos aqueles que encontrarmos, sejam participantes de nossa paz (…). Quanto a nós concerne, deverá ser a todos aplicada, à semelhança de um remédio, salutar e severa correção, para que não pereçam eles próprios, ou a outros não percam. A Deus, porém, pertencerá fazê-la eficaz àqueles a Quem preconheceu e predestinou.[11]

Beeke aponta uma forma equivocada de relacionar calvinismo e missões:  “Uma das acusações mais comuns suscitadas contra o calvinismo como perspectiva teológica é que ele não fomenta uma paixão duradoura por evangelização e missões”.[12]

Na realidade, conforme pudemos ver, Calvino, com seu espírito missional, em meio a tantas dificuldades se tornou o teólogo, teórico e agente missional de rara grandeza, estando totalmente comprometido no preparo de missionários e seu envio, sendo, possivelmente, o Pai da Missões Reformadas.

Fiz esta digressão, que esperava ser mais breve, para demonstrar que a doutrina da eleição  longe de ser um obstáculo à evangelização, é na realidade, um estímulo vital e consolador.[13] Esta doutrina ainda que nem sempre tenha sido vista por este ângulo; tendo inclusive alguns tentado justificar a sua inércia partindo de uma interpretação racionalizada, a verdade é que o zelo missionário de Calvino tem muito a ver com este ensinamento da Escritura.

A doutrina da predestinação não tornou a evangelização desnecessária; antes, a torna fundamental, já que é por meio do Evangelho que Deus chama o seu povo. Calvino, conforme temos visto, em diversas partes de seus escritos demonstrou a compreensão de que o Evangelho deveria ser pregado a todos e, como esta missão ainda não foi completada, obviamente compete a nós realizá-la.[14]

Devemos trabalhar com urgência dentro da esfera que nos foi confiada por Deus. O que não nos pertence deixemos onde está de modo firme e seguro: sob os cuidados de Deus.

O senso de urgência da Igreja deve ser derivado do senso de urgência de Deus. A Missão é de Deus. Ele soberana e graciosamente se agencia por meio da Igreja,[15] onde Ele manifesta de forma especial a sua glória  a homens e aos anjos: “Ainda que Deus seja suficiente a si mesmo e se satisfaça exclusivamente consigo mesmo, não obstante quer que sua glória se manifeste na Igreja”.[16]

O papel da Igreja é fundamental na evangelização:

A Igreja é a mãe comum de todos os piedosos, a qual suporta, nutre e governa, no Senhor, tanto a reis como a seus súditos; e tal coisa é feita através do ministério. Os que negligenciam ou fazem pouco desta ordem pretendem ser mais sábios do que Cristo. Ai de sua soberba![17]

A eleição do povo de Deus é para o serviço de Deus na sociedade.  A doutrina da vocação é o fundamento da teologia da vida cristã. Deus em seu amor eterno urgencia com a igreja a que compartilhe com todos, de forma “centrífuga” esta mensagem.[18]

A Pessoa de Cristo tem em si mesma e consequentemente em sua obra a força centrípeta que nos atrai e, num processo natural desta atração transformadora, exerce a sua força centrífuga[19] que nos conduz de forma imperativa a anunciar a sua pessoa e os seus feitos gloriosos e redentores entre todos os povos.

No Novo Testamento, Paulo instrui a Timóteo:  “Prega a palavra (…) Pois haverá tempo (kairo/j)[20] em que não suportarão a sã doutrina” (2Tm 4.2,3). Hoje ainda temos ouvintes; mas, até quando? Hoje temos aqueles ouvintes; mas por quanto tempo? Pois haverá tempo (kairo/j) em que não suportarão a sã doutrina”.

Aquelas pessoas que hoje ouvem a Palavra com interesse e avidez poderão não ouvir em outras épocas ou circunstâncias, daí a nossa responsabilidade de anunciar hoje a Palavra de Deus. “A Escritura nos adverte que, na perspectiva de Deus, o tempo é curto, a necessidade é grande e a tarefa é urgente”, destaca Stott.[21]

O senso de urgência deve nos levar a falar como se aquela fosse a última vez; a mensagem cristã deve ter sempre uma conotação de apelo ao homem para que assuma, pela graça de Deus, uma posição favorável e submissa à sua Palavra. Contudo, devemos nos lembrar de que “o motivo da urgência da evangelização jaz em Deus. Porque Ele é quem é, insiste urgentemente com os pecadores para que se convertam a Ele”, pontua Kuiper.[22]

O nosso trabalho deve ser feito com total confiança em Deus, sabendo que cabe a Ele converter o coração do homem e, que a rejeição do Evangelho neste momento não implica necessariamente na rejeição absoluta. Esta convicção nos estimula a trabalhar com fervor e alegre perseverança:

Visto que a conversão de uma pessoa está nas mãos de Deus, quem sabe se aqueles que hoje parecem empedernidos subitamente não sejam transformados pelo poder de Deus em pessoas diferentes? E assim, ao recordarmos que o arrependimento é dom e obra de Deus, acalentaremos esperança mais viva e, encorajados por essa certeza, aceleraremos nosso labor e cuidaremos da instrução dos rebeldes. Devemos encará-lo da seguinte forma: é nosso dever semear e regar e, enquanto o fazemos, devemos esperar que Deus dê o crescimento (1Co 3.6). Portanto, nossos esforços e labores são por si sós infrutíferos; e no entanto, pela graça de Deus, não são infrutíferos.[23]

Portanto, se não vermos os frutos não devemos desanimar. Obedeçamos a Deus e descansemos em suas promessas. Como já mencionamos, Calvino nos estimula a que caminhemos obedientemente pela fé:

Em nossos dias, Deus parece ordenar algo impossível quando requer que seu Evangelho seja proclamado em cada lugar do mundo inteiro, com o propósito de restaurá-lo da morte para a vida. Pois vemos quão grande é a obstinação de quase todos os homens, e que numerosos e poderosos métodos de resistência Satanás emprega, de modo que, em suma, todas as vidas de acesso a esses princípios se acham obstruídas. Contudo, cabe aos indivíduos cumprir seu dever e não ceder diante dos impedimentos; e, finalmente, nossos esforços e nossos labores de modo algum deixarão de ter sucesso, mesmo que este ainda não seja visto.[24]

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 2.4), p. 60. Ver também: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 12, (Ez 18.23), p. 246-249.

[2] João Calvino, As Pastorais, (1Tm 2.5), p. 62.

[3]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 17, (Mt 28.19), p. 384.

[4]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006,  v. 3, (III.9), p. 124.

[5] Ver: John Calvin, Commentary on the Prophet Micah. In: John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Mq 4.1-2), p. 101.

[6] Veja-se: J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 66-67.

[7] Na manhã do domingo de 2 de outubro de 1859, o então jovem ministro Charles Spurgeon (1834-1892), pregava em Londres sobre “O Sangue do Concerto Eterno” (Hb 13.20). Ao aproximar-se do final de sua exposição, diz: “O decreto da eleição é limitado, porém as boas novas abrangem o mundo todo. A ordem que recebi de Deus é a de proclamar as boas novas a toda criatura debaixo do céu. A aplicação eficaz do evangelho está restringida aos eleitos de Deus, e consequentemente pertence à vontade secreta de Deus, porém não é assim com a mensagem; esta deve ser anunciada a todas as nações” (C.H. Spurgeon, Sermões no Ano do Avivamento, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, p. 60).

[8]“A predestinação divina se constitui realmente num labirinto do qual a mente humana é completamente incapaz de desembaraçar-se. Mas a curiosidade humana é tão insistente que, quanto mais perigoso é um assunto, tanto mais ousadamente ela se precipita para ele. Daí, quando a predestinação se acha em discussão, visto que o indivíduo não pode conter-se dentro de determinados limites, imediatamente, pois, mergulha nas profundezas do oceano de sua impetuosidade” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 329-330). Ver: João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 26. A Palavra é-nos concedida para obediência, não para especulações (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 7/1, (Is 2.3), p. 95).

[9]João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 82.

[10] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 96.1), p. 514-515.

[11] João Calvino, As Institutas, III.23.14.

[12] Joel Beeke, Calvino e a Evangelização: In: Joel R. Beeke, org.,  Vivendo para Glória de Deus: uma introdução à Fé Reformada, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2010, 2012, [293-306], p. 293.

[13]O conceituado teólogo batista Millard Erickson, conclui: “A predestinação não anula o incentivo para a evangelização e as missões. Não sabemos quem são os eleitos e os não eleitos, portanto, precisamos continuar a divulgar a Palavra. Nossos esforços evangelísticos são os meios que Deus usa para levar a salvação aos eleitos. A ordenação de Deus para o fim também inclui a ordenação dos meios para atingir tal fim. O conhecimento de que as missões são o meio de Deus é uma forte motivação para o empenho e nos dá confiança de que será bem-sucedido” (Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, p. 390). Veja-se também: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã: Um manual de teologia ao alcance de todos,  Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 450.

[14] Veja-se: John Calvin, Commentary on the Prophet Micah. In: John Calvin Collection, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Mq 4.3), p. 101.

[15] “Todos nós deveríamos concordar que a missão surge primariamente da natureza de Deus e não da natureza da Igreja” (John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, Viçosa, MG.: Ultimato, 2010, p. 24). “A missão primordial é a de Deus, pois foi Ele quem mandou seus profetas, seu Filho, seu Espírito” (John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, p. 25).

[16]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.17), p. 100). “A igreja (…) é um espelho no qual os anjos contemplam a portentosa sabedoria de Deus, a qual anteriormente não conheciam. Contemplam uma obra totalmente nova para eles, cuja forma estava oculta em Deus”  (João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 3.10), p. 94).

[17] João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.12), p. 125.

[18] Vejam-se: J. Blauw, A Natureza Missionária da Igreja, São Paulo: ASTE., 1966, p. 34ss.; John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, Viçosa, MG.: Ultimato, 2010, p. 24ss.

[19] Li posteriormente esta linguagem sendo empregada para falar do aspecto missiológico dos salmos. Veja-se: Carl J. Bosma, Os Salmos: Porta de Entrada para as Nações. Aspectos da base teológica e prática missionária no Livro dos Salmos, São Paulo: Fôlego, 2009, p. 49ss.

[20]A  ideia da palavra é de “oportunidade”, “tempo certo”, “tempo favorável”, etc. (Vejam-se: Mt 24.45; Mc 12.2; Lc 20.10; Jo 7.6,8; At 24.25; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15). Ela enfatiza mais o conteúdo do tempo. Este termo que ocorre 85 vezes no NT é mais comumente traduzido por “tempo”, surgindo, então, algumas variantes, indicando a  ideia de oportunidade. Assim temos (Almeida Revista e Atualizada): Tempo e tempos: Mt 8.29; 11.25; 12.1; 13.30; 14.1; Lc 21.24; At 3.20; 17.26; “Devidos tempos”: Mt 21.41; “Tempo determinado”: Ap 11.18; “Momento oportuno”: Lc 4.13; “Tempo oportuno”: Hb 9.10; 1Pe 5.6; Oportunidade: Lc 19.44; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15; Devido tempo: Lc 20.10; Presente: Mc 10.30; Lc 18.30; “Circunstâncias oportunas”: 1Pe 1.11; Algum tempo: Lc 8.13; Hora: Lc 8.13; 21.8; Época: Lc 12.56; At 1.7; 1Ts 5.1 (Xro/nwn kai\ tw=n kairw=n); 1Tm 6.15; Hb 9.9; Ocasião: Lc 13.1; 2Ts 2.6; 1Pe 4.17; Estações: At 14.17; Vagar: At 24.25; Avançado: Hb 11.11.

[21] John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 417.

[22]R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 71.

[23]João Calvino, As Pastorais, (2Tm 2.25), p. 246-247.

[24] João Calvino, Série Comentários Bíblicos – Gênesis Volume 1,  Recife, PE.: CLIRE, 2018,  (Gn 17.23), p. 483-484.

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