O Seminário e a formação de Pastores – Parte 4

Reflexões históricas e teológicas (4)
(A propósito do dia dos Seminários e Seminaristas da IPB)

 

3. A Teologia como reflexão comprometida

A Teologia é o estudo sistematizado da Revelação Especial de Deus conforme registrada nas Escrituras Sagradas tendo como fim último o glorificar a Deus por intermédio do seu conhecimento e obediência à sua Palavra.[1] “O tema e o conteúdo da teologia é a Revelação de Deus”, resume Mackay (1889-1983).[2]

Deus é o Senhor da Revelação em toda a sua extensão (Sl 8.1). Nós, humildemente, rogamos a sua iluminação (Sl 119.18) e procuramos segui-la labutando e orando.

Existe teologia porque Deus se deu a conhecer de forma inteligível e adequada à nossa compreensão. Essa perspectiva epistemológica é fundamental para o pensar teológico.[3]  Há um Deus inteligente que consciente de si, livremente se deu a conhecer. Escreve Bavinck (1854-1921)

O fato de que a teologia existe é devido somente a Deus, à sua autoconsciência, ao seu bom prazer. Mas o meio, o caminho pelo qual o conhecimento de Deus nos alcança é a revelação de Deus, entendida aqui em um sentido completamente geral. Isso está implícito na natureza da revelação.[4]

 

Teologia “ectípica”: Verdadeira mas, não a verdade

Conforme vimos em outra série de artigos,[5] seguindo a linha de Kuyper (1837-1920),[6] devemos fazer duas observações fundamentais:

a) A Teologia nunca é “arquetípica”, mas, sim “éctipica”.[7] Ela não é gerada pelo esforço de nossa observação de Deus, mas, sim o resultado da revelação soberana e pessoal de Deus. Uma “Teologia Arquetípica” – se é que podemos falar desse modo – pertence somente a Deus porque somente Ele se conhece perfeitamente tendo, inclusive, ciência completa do seu conhecimento perfeito. “Em si mesmo ele é sujeito e objeto de todo conhecimento”, resume Hoeksema (1886-1965).[8]

 Somente Deus possui um conhecimento perfeito, arquétipo de si mesmo.[9] Por isso, como temos insistido em outros trabalhos, a Teologia sempre será o efeito da ação reveladora, inspiradora e iluminadora de Deus por meio do Espírito. (1Co 2.11).[10]

 A Teologia nunca é a causa primeira, sempre é o efeito da ação primeira de Deus em revelar-se. “No princípio Deus…”. Isto deve ser o fundamento  de todo e qualquer enfoque que dermos à realidade. Deus se revela e se interpreta por meio do Espírito, e é somente por meio dele que teremos um genuíno conhecimento do Senhor como Senhor. O Espírito que nos deu a Palavra é o genuíno intérprete dessa mesma Palavra.[11]

A teologia não pode ser autorreferente. Ela não se sustenta por si só. Ou ela se ampara na experiência humana (pessoal[12] ou social) ou se fundamenta em Deus. Neste caso, poderíamos reduzir a teologia a um ato de fé que se atira no abismo de um Deus absconditus. Contudo, a Teologia Reformada enfatiza o Deus transcendente e pessoal; o Deus que se revela verdadeiramente (Deus revelatus).

A teologia, portanto, pode ser verdadeira, já  que ela se propõe a conhecer e sistematizar a revelação. Contudo, ela jamais poderá ser a verdade. A verdade está somente em Deus, aquele que se revela, que é autorreferente, sendo o padrão de avaliação final de tudo que reivindica ser verdadeiro.[13]

A teologia sempre é relativa: “relativa à revelação de Deus. Deus precede e o homem acompanha. Este ato seguinte, este serviço são pensamentos humanos concernentes ao conhecimento de Deus”, sumaria Barth (1886-1968).[14]

 b) A Teologia não termina em conhecimento teórico e abstrato, antes se plenifica no conhecimento prático e existencial de Deus por intermédio da sua Revelação nas Escrituras Sagradas, mediante a iluminação do Espírito.[15] Conhecer a Deus é obedecer a seus mandamentos. (1Jo 2.4).[16] “A boa teologia desloca-se da cabeça até o coração e, finalmente, até a mão”, sumariam Grenz (1950-2005) e Olson.[17]

 A genuína teologia cristã é compreensível, transformadora e operante. (1Ts 1.5-10).[18] Ela reflete a nossa confissão, nos conduz à reflexão, e tem implicações direta em nossa ética[19] e proclamação.

 

Silêncio diante do Mistério

A teologia é uma declaração de fé comprometida com o revelado e com o povo de Deus e, também, é uma confissão de limitação, de finitude. Sabemos o que sabemos por graça. Contudo, o que sabemos aponta para a grandiosidade do que não sabemos; não nos foi revelado.

O teólogo, portanto, trabalha dentro desta dialética paradoxal: posso falar porque Deus revelou, contudo, devo saber permanecer em silêncio (douta ignorância) porque Deus revelou que há muitíssimo mais por saber. Sem a revelação não poderia saber o que sei nem saber que não sei.

De um modo mais simples podemos dizer que nenhum sistema teológico e menos ainda, nenhum teólogo, pode esgotar o revelado em todas as suas relações e implicações ou, tentar ir além dele. “Nenhum teólogo é grande bastante para reter todas as coisas em um perfeito relacionamento”, assevera Barclay (1919-2013).[20]

A Palavra de Deus é mais rica do que toda e qualquer teologia, por mais fiel que ela seja à Revelação.[21] Por isso, o critério último de análise, será sempre “O Espírito Santo falando na Escritura”.[22]

 

Teólogo como servo

“A teologia é serva da igreja”, pontua McGrath.[23] Este serviço será relevante se, antes, a teologia for serva da Palavra.[24] Não há como servir à Igreja sendo infiel para com a Palavra. Portanto, o teólogo deve ser um servo da Palavra (At 6.4), lutando contra o nosso orgulho natural, que rejeita este modelo, nos colocando como senhor,[25] que gosta de ter a primazia (1Pe 5.1-4; 3Jo 9-10).

A grande virtude de quem serve é ser encontrado fiel (1Co 4.2). O teólogo não pode ter outro propósito do que o de glorificar a Deus por meio da compreensão fiel das Escrituras e no seu ensino ao povo de Deus. Somos responsáveis diante de Deus pelo que ensinamos.[26]

Biblicamente, a autoridade de quem ensina é derivada da fidelidade aos ensinos de Deus, não da sua criatividade exercitada de forma independente e à revelia da fidelidade ao ensino da Palavra (Dt 4.1,5,10,14;[27] 5.1,31; 6.1).

A nossa teologia é sempre limitada e finita. Nunca é um edifício completo em todas as suas partes.[28] Antes, é uma tentativa humana de aproximação fiel das Escrituras, rogando a indispensável assistência do Espírito (Sl 119.18) e, por isso mesmo, sempre aberta à correção e aperfeiçoamento provenientes do estudo das Escrituras.

 

Teologia de Peregrinos

Nesse propósito, como igreja militante, ela elabora uma “teologia de peregrinos”,[29] como uma direção humilde para os peregrinos que vivem no mundo de Deus buscando compreender e vivenciar de forma autêntica as etapas de sua jornada,[30] caminhando juntos em procissão,[31] buscando o melhor caminho, até que cheguem ao seu destino (Rm 8.29-30)[32] e, o Senhor Jesus volte para nos conduzir em absoluta segurança para o lugar que Ele mesmo foi-nos preparar. (Jo 14.1-6).

No céu, na Cidade de Deus então, teremos uma “teologia dos benditos”.[33] Estaremos de volta à nossa terra natal.

Por isso, quanto mais bíblica, exegética e teológica for, será mais profunda e relevantemente pastoral para nos guiar em nosso caminho. As perguntas ao texto podem assumir configurações diferentes conforme as nossas indagações pessoais, sociais e acadêmicas, todavia, sempre devem conduzir o povo a conhecer mais a Deus e a se relacionar com Ele em santo temor.

Ainda que descendentes de Adão e Eva, já não estamos no Jardim do Éden, por isso, além do pecado que nos influencia, devemos nos lembrar que pensamos e vivemos teologia em meio a um mundo com as suas lutas próprias resultantes do pecado, aguardando e gemendo por sua restauração.[34]

No tempo presente, oferecemos o nosso labor a Deus, sabendo que a doutrina não é apenas para o nosso deleite espiritual e reflexivo, antes, exige de forma imperativa um compromisso de vida e obediência. “O fim de um teólogo não pode ser deleitar o ouvido, senão confirmar as consciências ensinando a verdade e o que é certo e proveitoso”, declarou corretamente Calvino (1509-1564).[35]

Em outro lugar:

Visto que todos os questionamentos supérfluos que não se inclinam para a edificação devem ser com toda razão suspeitos e mesmo detestados pelos cristãos piedosos, a única recomendação legítima da doutrina é que ela nos instrui na reverência e no temor de Deus. E assim aprendemos que o homem que mais progride na piedade é também o melhor discípulo de Cristo, e o único homem que deve ser tido na conta de genuíno teólogo é aquele que pode edificar a consciência humana no temor de Deus.[36]

 

Teologia compromissada

A teologia deverá estar sempre comprometida com o conhecimento de Deus e com a promoção deste conhecimento por meio da Palavra, mediante a iluminação do Espírito. É o Espírito quem nos conduz à Palavra e Ele mesmo nos dá a conhecer a Cristo nas Escrituras. Aliás, Jesus Cristo é o cerne de toda a Escritura, devendo ser o foco de toda pregação genuinamente bíblica. A pregação que falha na exaltação de Cristo, certamente fugiu totalmente ao objetivo da genuína pregação.[37]

O teólogo não pode ter outro propósito do que o glorificar a Deus por meio da compreensão fiel das Escrituras e no seu ensino ao povo de Deus. “A teologia é a reflexão sobre o Deus que os cristãos cultuam e adoram”, sintetiza McGrath.[38]

Por isso, o teólogo não é um transeunte em férias com uma agenda flexível, e sem maiores compromissos, antes, podemos compará-lo a um peregrino em busca do melhor caminho que o conduza de forma mais adequada possível à glorificação do Nome de Deus por meio de seu conhecimento, ensino e obediência.

 

Teologia dos que creem

A teologia é função da Igreja Cristã, dentro da qual estamos inseridos. Não apenas refletimos. Antes, pensamos crendo no revelado rogando o discernimento concedido pelo Senhor para que possamos entender a Palavra e aplicá-la de forma fiel e consistente.

O interesse puramente acadêmico pela teologia é incapaz de contribuir por si só para a solidificação da teologia e da fé da Igreja. A teologia é uma expressão de fé da igreja amparada na Escritura. Toda teologia é, portanto, apaixonada.[39] Como falar de Deus e de sua Palavra de forma “objetiva” e distante do seu “objeto”? A teologia é elaborada pelos crentes. O caminho da fé é o caminho da paixão. O teólogo sempre será um apaixonado.[40] Aliás, adaptando Kierkegaard (1813-1855), diria que um teólogo sem paixão é um “tipo” medíocre.[41]

A teologia começa e continua na comunhão com Deus, um Deus transcendente e pessoal que se relaciona conosco. Por isso, a teologia não é um estudo a respeito de um Deus distante, antes, é a reflexão sobre o Deus com quem nos relacionamos, perseveramos confiantemente em suas promessas e o cultuamos em adoração e louvor.

“Quanto mais conhecemos Deus, mais compreendemos, e sentimos que seu mistério é inescrutável”, enfatiza Brunner (1889-1966).[42] O maravilhoso mistério a respeito de Deus aumenta em nossa compreensão à medida que mais o conhecemos.[43]

 

O teólogo e o temor do Senhor

A teologia deve nos conduzir à intimidade do temor do Senhor:     “A intimidade (dAs) (sod) (conselho secreto, conversa confidencial) do SENHOR é para os que o temem (arey) (yare’), aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” (Sl 25.14).

O temor de Deus nos fala de um senso de reverência pelo fato de conhecermos a Deus, sabermos de sua grandeza e majestade. Os que temem a Deus são os íntimos; têm “conversas confidenciais” com o Senhor.

Mais uma vez nos deparamos com um paradoxo. O senso de temor, longe de nos afastar, nos aproxima de Deus. Somos tornados íntimos de Deus. É Ele mesmo quem nos aproxima de si.

Deus compartilha com os que o temem, a sua Aliança, o seu propósito e conselho, colocando no coração destes a alegria e a confiança de saber de forma experiencial quem é o seu Deus, o Deus da Aliança, digno de todo temor  ‒ próprio daqueles que são íntimos do Senhor ‒, e alegre obediência. Por isso, conforme escreve Patterson, “o homem justo e reto, que anda no temor do Senhor, receberá o conselho secreto de Deus”.[44]

O temor de Deus é algo essencial à vida cristã. A Palavra nos mostra em diversas passagens como este temor longe de ser algo que nos afaste de Deus causando uma ansiedade paralisante,[45] é resultado do conhecimento de Deus, do seu amor, bondade, misericórdia, santidade, justiça e glória.[46]

O Messias, na plenitude do Espírito,  no completo conhecimento do Senhor, no mais perfeito temor do Senhor, regozija-se em temê-lo:

Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo.  2 Repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor (ha’r>yI)  (yirah)  do SENHOR.  3 Deleitar-se-á no temor (ha’r>yI)  (yirah)  do SENHOR; não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos. (Is 11.1-3).

O temor do Senhor é uma relação de graça por meio da qual podemos conhecer a Deus, nos relacionar com Ele tendo alegria e gratidão por temê-lo.

O amor como compromisso nos estimula a servir a Deus em alegre obediência. “A graça e o favor de Deus não abolem a solenidade do trato”, adverte-nos Mundle.[47] O nosso santo temor a Deus se manifesta em amor reverente e obediente.[48]

O temor de Deus envolve o senso de nossa pequenez e da sua maravilhosa graça. O temor a Deus é um encantamento com a sua majestade e a consciência de nosso pecado e carência de sua misericórdia. Aliás, o Senhor é quem nos ensina a temê-lo e reverenciá-lo.

Estou convencido que o temor de Deus é um aprendizado de amor que se manifesta em reverência, admiração, obediência e culto[49] tendo implicações em todas as áreas de nossa vida.

O teólogo deve ser caracterizado pelo temor ao Senhor.

 

Douta Ignorância

Quanto mais conhecemos a Deus mais temos consciência do quão pouco conhecemos. A douta ignorância faz parte essencial da fé genuína e sincera.[50] O conhecimento de nossa limitação não é inato, antes é precedido pela revelação. Sem a revelação de Deus não há teísmo, ateísmo nem agnosticismo. É no encontro significativamente pessoal com Deus que tomamos conhecimento de nossas limitações.[51] O nosso conhecimento poder ser real e genuíno, porém é fragmentado e limitado.[52] Contudo, devemos nos alegrar em poder conhecer. O Senhor não exigirá mais do que nos foi dado. Mas, o Senhor exige a nossa fidelidade no muito e no pouco.[53]

Talvez aqui devêssemos nos arrepender e chorar pelo fato de nem sempre termos esses propósitos em vista, nos tornando arrogantes e negligentes, confiando em nossa capacidade ou barateando a graça por meio de nossa ociosidade, inépcia e falta de temor.

Que o Senhor nos console com o seu perdão, nos imbuindo de maior fidelidade, humildade, piedade e santo temor.

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] “O alvo final da reflexão teológica é que Deus seja glorificado na vida dos que creem, pela maneira em que vivem e por aquilo que fazem” (Stanley J. Grenz; Roger C. Olson, Quem Precisa de Teologia? Um convite ao estudo sobre Deus e sua relação com o ser humano, São Paulo: Vida, 2002, p. 54).

[2]John Mackay, Prefacio a la Teologia Cristiana, México; Buenos Aires: Casa Unida de Publicaciones; La Aurora, 1946, p. 28.

[3] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Fundamentos Pressuposicionais da Teologia Reformada, Goiânia, GO.: Cruz, 2022.

[4]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 212.

[5]Veja-se: https://ridleymota.com.br/index.php/2023/04/27/tentando-pensar-e-viver-como-um-reformado-reflexoes-de-um-estrangeiro-residente/

[6]A. Kuyper, Principles of Sacred Theology, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1980 (reprinted), § 60, p. 257ss. Ver também: Herman Bavinck, Reformed Dogmatics: Volume 1: Prolegomena, p. 212. Esta distinção, ao que parece, originou-se com o teólogo Polanus (1561-1610) (Cf. Richard A. Muller, Post-Reformation Reformed Dogmatics, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1987, v. 1, p. 126-127).  Kant também emprega ambas as classificações, falando de theologia archetypa e theologia ectypa. (I. Kant, Lectures on philosophical theology, London: Cornell University Press, 1978, p. 23,86).

[7]“Éctipo” é uma palavra de derivação grega, “e)/ktupoj” (cópia de um modelo, ou reflexo de um arquétipo), passando pelo latim “ectypus” (feito em relevo, saliente). “Éctipo” é o oposto a arquétipo (do grego, “a)rxe/tupoj” = “original”, “modelo”). Na filosofia, G. Berkeley (1685-1753) estabeleceu esta distinção no campo das ideias:

“Pois acaso não admito eu um duplo estado de coisas, a saber: um etípico, ou natural, ao passo que o outro é arquetípico e eterno? Aquele primeiro foi criado no tempo; e este segundo desde todo o sempre existiu no espírito de Deus” (G. Berkeley, Três Diálogos entre Hilas e Filonous, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 22), 1973, 3º Diálogo, p. 119).

[8]H. Hoeksema, Reformed Dogmatics, 3. ed. Grand Rapids, Michigan: Reformed Free Publishing Association, 1976, p. 15. Barth acentua: “A revelação é um círculo fechado onde Deus é o sujeito, o objeto e o termo médio” (Karl Barth, La Proclamacion del Evangelio, Salamanca: Ediciones Sigueme, 1969, p. 19). Ver também: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 155, 185s.

[9]De certo modo, é isso que afirma Wollebius (1586-1629): “A verdadeira teologia é corretamente classificada como original e derivada. A teologia original é o conhecimento que Deus tem de si mesmo. Na realidade esta não difere da essência de Deus. A teologia derivada é uma espécie de cópia da original, primeiro em Cristo, o Deus-homem, e em segundo, nos membros de Cristo. Alguns membros de Cristo são triunfantes no céu, e outros militantes na terra; a teologia dos triunfantes pode ser chamada de teologia dos benditos, e a dos militantes é nomeada de teologia dos peregrinos” (Johannes Wollebius, Compêndio de Teologia Cristã,  Eusébio, CE.: Peregrino, 2020, p. 23).

[10] Veja-se: Geerhardus Vos, Teologia Bíblica, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 13-14.

[11]“Daí se segue que, enquanto não formos intimamente instruídos por Ele (Espírito Santo), o entendimento de todos nós é assenhoreado pela vaidade e falsidade” (João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.17), p. 101; João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.4), p. 89).

[12]Nossas experiências não servem de fundamento sólido para a nossa fé. Antes, elas devem ser examinadas à luz das Escrituras. A Palavra de Deus é o firme fundamento de nossa fé. A Palavra deve ser a intérprete, norteadora e corretora do que experimentamos. Quando priorizamos a experiência, caímos na armadilha de tornar a Palavra algo secundário e, por isso mesmo, nós temos uma fé frágil, inconstante, sendo movidos ao sabor das nossas paixões e interesses circunstanciais. Alguém pode então indagar: e a experiência não tem valor algum? Claro que sim. A vida cristã é fundamentalmente experimentável. No entanto, insistimos, somente a Escritura é infalível e nos capacita a interpretar corretamente o que experimentamos.  Escreve corretamente Craig: “Pessoas que simplesmente andam na montanha russa da experiência emocional estão roubando de si mesmas uma fé cristã mais rica e profunda ao negligenciar o lado intelectual dessa fé” (William L. Craig, A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 14).

[13]Quando Jesus Cristo em sua oração declara: “A Tua Palavra é a verdade (a)lh/qeia) (Jo 17.17), e: “E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade (a)lh/qeia) (Jo 17.19), Ele não nos diz que a Palavra de Deus se harmoniza com algum outro padrão distinto decorrendo daí a sua veracidade, antes, o que afirma é que a Sua Palavra é a própria verdade, o padrão de verdade ao qual qualquer alegação pretensamente verdadeira deverá se adequar (Veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Tua Palavra é a Verdade, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 73ss.).

[14]Karl Barth, The Faith of the Church: A Commentary on Apostle’s Creed According to Calvin’s Catechism, Great Britain: Fontana Books, 1960, p. 27.

[15] “É Ele que nos ilumina com a sua luz para nos fazer entender as grandezas da bondade de Deus, que em Jesus Cristo possuímos. Tão importante é o seu ministério que com justiça podemos dizer que Ele é a chave com a qual são abertos para nós os tesouros do reino celestial, e que a sua iluminação são os olhos do nosso entendimento, que nos habilitam a contemplar os mencionados tesouros. Por essa causa Ele é agora chamado Penhor e Selo, visto que sela em nosso coração a certeza das promessas. Como também agora Ele é chamado mestre da verdade, autor da luz, fonte de sabedoria, conhecimento e discernimento” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.4), p. 89).

[16]“Aquele que diz: Eu o conheço (ginw/skw) e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2.4).

[17]Stanley J. Grenz; Roger E. Olson, Quem Precisa de Teologia? Um convite ao estudo sobre Deus e sua relação com o ser humano, São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 51.

[18] Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 67.

[19] Ver R.C. Sproul, O Que É a Teologia Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 14-15.

[20] Oliver Barclay, Mente Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 47.

[21] “Porventura a Escritura não é mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico, por mais excelente e atento ao Verbo divino que este possa ser?” (G.C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, São Paulo: ASTE., 1964, p. 72). Dentro desta mesma linha de pensamento, escreveu Kuiper (1886-1966): “Todos juntos, os credos do cristianismo, de nenhuma maneira se aproximam de esgotar a verdade da Sagrada Escritura” (R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo: La Santa Iglesia, Grand Rapids, Michigan: SLC. 1985, p. 99).

[22]Confissão de Westminster, I.10. Timothy George observa que, “Os reformadores eram grandes exegetas das Escrituras Sagradas. Suas obras teológicas mais incisivas encontram-se em   seus sermões e comentários bíblicos. Eles estavam convencidos de que a proclamação da igreja cristã não poderia originar-se da filosofia ou de qualquer cosmovisão auto-elaborada. Não poderia ser nada menos que uma interpretação das Escrituras.            Nenhuma outra proclamação possui direito ou esperança na igreja. Uma teologia que se baseia na doutrina reformada das Escrituras Sagradas não tem nada a temer com as descobertas precisas dos estudos bíblicos modernos” (Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 313).

[23]Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 16.

[24] Ver: Alister E. McGrath, Teologia para Amadores, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 32.

[25]Veja-se: John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 97.

[26] “Não há dúvida de que a ignorância tem causado muita confusão, mas nós afirmamos que um guia que negligencia o exame das estradas antes de empreender um trabalho de condutor de viajantes é indigno de seu título. Um ministro da Palavra é um guia espiritual, nomeado pelo Senhor Jesus para conduzir os peregrinos que viajam para a Jerusalém celestial  através dos Alpes da fé, onde as comunicações comuns da vida terrena cessaram de um ao outro platô da montanha. Dessa forma, ele é indesculpável quando, meramente supondo a localização da cidade celestial, aconselha seus peregrinos a tentarem o caminho que parece ir naquela direção. Em virtude de seu posto, ele deve ter como seu objetivo principal conhecer qual é o caminho mais curto, mais seguro e mais certo e, então, dizer-lhes que esse, e não outro, é o caminho a seguir. Antigamente, quando os vários caminhos ainda não tinham sido examinados, era até certo ponto recomendável tentar todos, mas, agora, visto que o seu caráter enganador é tão bem conhecido, tornou-se imperdoável tentá-los novamente” (Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 392).

[27]1Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos (jP’v.mi) (mishpat) que eu vos ensino, para os cumprirdes, para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos dá. (…) 5 Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos (jP’v.mi) (mishpat), como me mandou o SENHOR, meu Deus, para que assim façais no meio da terra que passais a possuir.  (…)  10 Não te esqueças do dia em que estiveste perante o SENHOR, teu Deus, em Horebe, quando o SENHOR me disse: Reúne este povo, e os farei ouvir as minhas palavras, a fim de que aprenda a temer-me todos os dias que na terra viver e as ensinará a seus filhos (…)14 Também o SENHOR me ordenou, ao mesmo tempo, que vos ensinasse estatutos e juízos, para que os cumprísseis na terra a qual passais a possuir” (Dt 4.1,5,10,14).  “Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o SENHOR, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir” (Dt 6.1).

[28] “A teologia deve sempre ser submetida à reforma. O entendimento humano é imperfeito. Embora as construções sistemáticas de alguma geração ou grupo de gerações possam ser arquitetônicas, sempre há a necessidade de correção e reconstrução de modo que a estrutura possa vir a uma aproximação mais íntima das Escrituras e a reprodução possa vir a ser uma transcrição ou reflexo mais fiel do exemplar divino” (John Murray, O Pacto da Graça: um estudo bíblico-teológico, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2001, p. 8).

[29] Wollebius (1586-1629) denomina a teologia elaborada pelos fiéis que militam ainda nessa vida, de “teologia dos peregrinos” (Johannes Wollebius, Compêndio de Teologia Cristã,  Eusébio, CE.: Peregrino, 2020, p. 23).

[30] “A esfera da História e da matéria não é uma prisão da qual  devemos fugir pela contemplação da realidade imutável, mas o teatro da glória de Deus” (Michael Horton, Doutrinas da fé cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 48).

[31]Veja-se: Michael Horton, Doutrinas da fé cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 35.

[32] “O objetivo da boa teologia é humilhar-nos diante do Deus trino de majestade e graça. (…) Os antigos teólogos da Reforma e da pós-Reforma estavam tão convictos que suas interpretações estavam muito distantes da majestade de Deus que eles chamavam seus resumos e sistemas de ‘nossa humilde teologia’ e ‘uma teologia para peregrinos no caminho’” (Michael Horton, Doutrinas da fé cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 15). Vejam-se: João Calvino, Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.6), p. 93; John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 97; Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 45. “O pensamento que me governa é que eu sou um peregrino e um estrangeiro indo para Deus, de modo que, necessariamente, eu passo o tempo pensando em minha alma e em meu destino” (D.M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 34).

[33] Cf. Johannes Wollebius, Compêndio de Teologia Cristã,  Eusébio, CE.: Peregrino, 2020, p. 30.

[34] Cf. Joel R. Beeke; Paul M. Smalley,  Teologia Sistemática Reformada,  São Paulo: Cultura Cristã, 2020, v. 1, p. 52.

[35]João Calvino, As Institutas, I.14.4.

[36]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos,1998, (Tt 1.1), p. 300.

[37] Quanto a este ponto, veja-se o excelente e desafiante livro de Lawson. (Steven J. Lawson, O Tipo de pregação que Deus abençoa, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013). “A pregação expositiva exalta o senhorio de Cristo sobre a igreja dele” (John MacArthur, Por que ainda prego a Bíblia após quarenta anos de ministério: In: Mark Dever, ed., A Pregação da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 141). “Um dos objetivos do sermão, sem dúvida, o mais elevado, deve ser a adoração de Deus e a exaltação do seu nome” (Walter L. Liefeld,  Exposição do Novo Testamento: do texto ao sermão, São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 22).

[38]Alister E. McGrath, Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 15. Da mesma forma em: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: Uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 175. “A teologia cristã é a doutrina acerca de Deus, como Ele é conhecido e adorado para a sua glória e para a nossa salvação” (Johannes Wollebius, Compêndio de Teologia Cristã, Eusébio, CE.: Peregrino, 2020, p. 23).

[39]Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, p. 40.

[40] Li posteriormente a declaração de Kapic: “Tal conhecimento (de Deus) não é meramente intelectual: é também apaixonado, e toca tanto o nosso entendimento quanto os nossos afetos” (Kelly M. Kapic, Pequeno livro para novos teólogos, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 31).

[41]A frase de Kierkegaard é: “O paradoxo é a paixão do pensamento, e o pensador sem um paradoxo é como o amante sem paixão, um tipo medíocre” (Sören A. Kierkegaard, Migalhas filosóficas, ou, um bocadinho de filosofia de João Clímacus, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1995, p. 61).

[42]Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 156.

[43] “O verdadeiro mistério só pode ser entendido como  um mistério genuíno mediante a revelação” (Emil Brunner,  Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157).

[44]R.D. Patterson, Swd: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1031.

[45]Cf. Mt 28.4.

[46] “A única coisa que, segundo a autoridade de Paulo, realmente merece ser denominada de conhecimento é aquela que nos instrui na confiança e no temor de Deus, ou seja, na piedade” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos,1998, (1Tm 6.20), p. 187). “Quem quer que deseje crescer na fé deve também ser diligente em progredir no temor do Senhor” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 25.14), p. 557).

[47] W. Mundle, Medo: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 147.

[48] “Não existe incompatibilidade entre amor e obediência; pois na vida verdadeiramente santificada existe a obediência em amor e o amor obediente” (Ernest Kevan, A Lei Moral, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 9).

[49] “Se um genuíno conhecimento de Deus habita os nossos corações, seguir-se-á inevitavelmente que seremos conduzidos a reverenciá-lo e a temê-lo. Não é possível ter genuíno conhecimento de Deus exceto pelo prisma de sua majestade. É desse fator que nasce o desejo de servi-lo, e daqui sucede que toda a vida é direcionada para ele como seu supremo alvo” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.6), p. 306).

[50]Vejam-se: J. Calvino, As Institutas, III.21.2,4; III.23.8; III.25.6; João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997 (Rm 9.14), p. 330.

[51] Ver: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 157, 159ss.

[52] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98, 110.

[53] Veja-se: Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 10.

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