Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 9

4. Criação e Queda

Portanto, por mais que ao homem convenha, com sério propósito, os olhos volver à consideração das obras de Deus, uma vez que foi colocado neste esplendíssimo teatro para que lhes fosse espectador, todavia, para que frua maior proveito, convém-lhe, sobretudo, alçar os ouvidos à Palavra. ‒ João Calvino.[1]

Uma doutrina da criação é o alicerce da cosmovisão bíblica e cristã. A criação não deve ser deificada nem desprezada, mas, como “teatro da glória de Deus”, deve ser desfrutada e usada com ponderação. Ela é a boa criação de Deus. − Herman Bavinck.[2]

O mundo inteiro é música, cujo compositor e intérprete é Deus. − Gregório de Nissa (c. 335-395).[3]

 

Introdução

Como vimos, as Escrituras iniciam o seu registro com o Deus Autoexistente e Autopoderoso criando do nada todas as coisas. (Gn 1.1).

O Catecismo Maior de Westminster respondendo à pergunta – “Qual é a obra da criação?” – resume: “A obra da criação é aquela pela qual, no princípio e pela palavra do seu poder, Deus fez do nada o mundo e tudo quanto nele há, para si, no espaço de seis dias, e tudo muito bom”.[4] (Gn 1; Rm 11.36; Ap 4.11).

 

A. A Narrativa Bíblica

Kuyper (1837-1920) nos chama a atenção para um ponto que costumeiramente é esquecido:

Quando Deus criou Adão, Ele nos criou: na natureza de Adão ele fez surgir a natureza onde nós agora vivemos. Os capítulos de Gênesis 1 e 2 não são registros de alienígenas, mas o nosso próprio registro – referente à carne e sangue que carregamos conosco, à natureza humana em que nos sentamos para ler a Palavra de Deus.[5]

Assim sendo, tratar da criação do homem significa falar de nós mesmos, de nossa origem, da nossa história por meio de nossos primeiros pais. É impossível fazer isso de forma indiferente. À frente, Kuyper continua: “Quando Deus formou Adão, do pó, ele também nos formou. (…) A queda de Adão foi também a nossa. Numa palavra, a primeira página de Gênesis relata a nossa própria história real, e não a de um estranho”.[6]

A doutrina da Criação e da Queda é fundamental à teologia e fé cristã. Daí, em especial, o caráter decisivo da historicidade dos três primeiros capítulos de Gênesis. Deus age no tempo que Ele mesmo cria e preserva. Ele é Senhor do tempo. Deus cria o homem e a mulher e por meio deles, toda a humanidade. O pecado, resultado da desobediência, ocorreu na história. Por isso, todo o desenvolvimento da história em consonância com a promessa de Deus da vinda daquele que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15).[7]

A leitura da história sem o entendimento da Queda de nossos primeiros pais será sempre incompleta e sem sentido. Se não compreendermos o fato bíblico da Criação e da Queda, do pecado do homem como um distúrbio de alcance cósmico, que afetou drasticamente todas as relações, a começar entre a criatura e o Criador, jamais poderemos ter condições de entender o significado da História; teremos um grande quebra-cabeça diante de nós faltando algumas peças que não podem ser deduzidas intuitivamente. A história da humanidade sem a Revelação Bíblica carece de total sentido.

Lloyd-Jones (1899-1981), conclui:

O importante princípio que devemos manter sempre vívido na mente é que a única maneira de entender a longa história da raça humana é dar-se conta de que ela é resultado da Queda. Essa é a única chave da história, de qualquer espécie de história, tanto da história secular como desta história mais puramente espiritual que temos na Bíblia. Não se pode entender a história da humanidade se não se leva em conta este grande princípio. A história é o registro do conflito entre Deus e suas forças, de um lado, e o diabo e suas forças, de outro; e o grande princípio determinante é de imensa importância, não só para entender-se a história passada, como também para entender-se o que está acontecendo no mundo hoje. É, igualmente, a única chave para compreender-se o futuro. Ao mesmo tempo, é a única maneira pela qual podemos compreender as nossas experiências pessoais.[8]

A encarnação ocorreu na história, assim como a morte e ressurreição de Jesus Cristo. O Cristo na cruz é aquele que viria e veio, esmagando a cabeça da serpente. Seu sangue e sofrimento são frutos de sua ferida vitoriosa.

Desprezar a doutrina da Criação significa uma falta de compreensão bíblica do propósito de Deus que faz todas as coisas conforme a sua determinação e graça. Sem a Criação não teria sentido a encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo, o eterno Filho de Deus.

A doutrina da Criação nos fala do poder todo suficiente de Deus e de nossa total dependência daquele que nos criou e preserva. Somente Deus, pelo seu poder, pode do nada tudo criar e, ao mesmo tempo, no exercício de seu poder, preservar todas as coisas, visíveis e invisíveis, conhecidas e ignoradas por nós. A criação é a expressão do Deus que pensa e cria, sem inspiração alguma fora de si mesmo. Na criação vemos delineados aspectos do ser de Deus, de sua sabedoria, bondade e poder.[9]

Bavinck enfatiza: “A doutrina da criação a partir do nada ensina a absoluta soberania de Deus e a absoluta dependência humana. Se uma partícula não tivesse sido criada do nada, Deus não seria Deus”.[10]

Fazendo eco à Bavinck e Kuyper, dizemos que não há um pedaço, um “cantinho” do universo que não tenha sido criado por Deus. Não há vida fora de Deus. Nele vivemos, nos movemos e existimos. (At 17.28).

Portanto, um dos aspectos fundamentais da soberania de Deus repousa no fato dele, por meio do Espírito,  ter criado todo o universo e a nós conforme sua deliberação e graça. Vejamos a expressão dessa realidade em alguns salmos:

Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles. (Sl 33.6).

Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou. (Sl 95.6).

Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio. (Sl 100.3).

Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas. (Sl 104.24).

O meu socorro vem do SENHOR, que fez o céu e a terra. (Sl 121.2).

A Bíblia atesta que Deus faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade (Ef 1.11), conforme o seu santo prazer e deliberação (Sl 115.3). Todos os seus atos, livres como são, constituem-se em manifestações do seu soberano poder e da sua infinita sabedoria (Pv 3.19; Rm 11.33).

O salmista diz que a inteligência do Senhor é incomensurável: Grande (lAdG”) (gadol) é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento (hn”WbT.) (tebunah) não se pode medir” (Sl 147.5).

E esta sabedoria se manifestou na criação: “Àquele que com entendimento (hn”WbT.) (tebunah) fez os céus, porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 136.5).

Jeremias escreve: “O Senhor fez a terra pelo seu poder; estabeleceu o mundo por sua sabedoria (hm’k.x’) (chokmah), e com a sua inteligência (!WbT’) (tabuwn) (judiciosamente,[11] entendimento[12]) estendeu os céus” (Jr 10.12).

No livro de Jó lemos: “Eis que Deus se mostra grande em seu poder!” (Jó 36.22/Jó 36.26).

A Criação é resultado da vontade e do poder criador de Deus, revelando aspectos da sua majestade e grandeza. (Gn 1.1,26,27; Sl. 148.5; Is 44.24; Jr 32.17; Rm 1.20; 4.17; 2Co 4.6; Hb 11.3; Ap 4.11). “Toda a criação nada mais é do que a cortina visível por detrás da qual irradia a operação excelsa desse pensamento divino”, interpreta Kuyper.[13]

Na criação em geral e na formação do homem em especial, encontramos a concretização precisa do decreto eterno de Deus. O homem é o produto da vontade de Deus: “Tudo quanto aprouve ao Senhor ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135.6).

Assim, o homem não foi criado por um insensível acaso, por uma catástrofe cósmica ou por uma complicada mistura de gases e matérias. O homem foi formado por Deus de acordo com a sua sábia e soberana vontade (Gn 2.7; Rm 11.33-36).[14]

O salmista louva e convida os fiéis a louvarem a Deus considerando o seu poder na Criação: “Louvem o nome do Senhor, pois mandou ele, e foram criados” (Sl 148.5).[15]

Na Criação nos deparamos já de início com o Deus que fala e age com poder. O seu poder “é a primeira coisa evidente na história da criação (Gn 1.1)”, destaca Charnock (1628-1680).[16] De fato, a criação do nada nos fala de seu infinito e incompreensível poder.[17]

Davi contemplando a majestosa criação de Deus, escreveu: “Graças te dou, visto que por modo assombrosamente (arey”) (yare’) maravilhoso (hl’P’) (palah) me formaste; as suas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem” (Sl 139.14).[18]

A doutrina da Criação nos fala do poder todo suficiente de Deus e de nossa total dependência daquele que nos criou e preserva. Somente Deus, pelo seu poder, pode do nada tudo criar.[19]

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1]João Calvino, As Institutas, I.6.2.

[2]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 415-416.

[3] Gregório de Nissa, Apud: Luís Alonso Schökel; Cecília Carniti, Salmos I: salmos 1-72, São Paulo: Paulus, 1996, p. 336.

[4] Catecismo Maior de Westminster, Perg. 15.

[5]Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 70.

[6]Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 71.

[7] “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15).

[8]D.M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 72.

[9]Veja-se: Abraham Kuyper,  Sabedoria & Prodígios: Graça comum na ciência e na arte,  Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 35-39.

[10]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 427.

 

[11] Sl 49.4.

[12] Sl 136.5; 147.5.

[13]Abraham Kuyper, Sabedoria & Prodígios: Graça comum na ciência e na arte,  Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 38.

[14] “A origem da humanidade não é, de acordo com o nosso texto [Gn 1.26], o resultado de acontecimentos fortuitos que ocorreram por meio de eras prolongadas de tempo” (Gerard van Groningen, Criação e Consumação, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, v. 1, p. 76).

[15]Como indicativo histórico extrabíblico do conceito judeu referente à criação do mundo como sendo proveniente do nada, citamos o livro apócrifo de Macabeus, que diz: “Suplico-te, meu filho, que olhes para o céu e para a terra e para todas as coisas que há neles, e que penses bem que Deus as criou do nada, assim como a todos os homens” (2Mac 7.28).

[16]Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Two volumes in one), 1996 (Reprinted), v. 2, p. 36.

[17]Cf. Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God, v. 2, p. 38.

[18] “Ao único que opera grandes (lAdG”) (gadol) maravilhas (al’P’) (pala), porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 136.4).

[19] “A doutrina da criação a partir do nada ensina a absoluta soberania de Deus e a absoluta dependência humana. Se uma partícula não tivesse sido criada do nada, Deus não seria Deus” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 427).

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